← Blog Eleições 2026

O corte de R$ 200 bilhões também chega ao seu consultório

Mesmo com pacientes particulares e de convênio, o consultório sente o impacto de grandes cortes de gastos públicos. Entenda como a conta chega até a clínica.

Saúde pública   22 de outubro de 2026 · 9 min de leitura · Por Greisy Jordão

Mesa de consultório médico com estetoscópio, agenda, calculadora e tesoura sobre cédulas de real, ilustrando o corte de R$ 200 bilhões e seu impacto nas clínicas
Corte de gastos públicos pode chegar à agenda das clínicas particulares · Imagem gerada por IA

Você atende pacientes de classe média. Eles têm plano ou pagam a consulta particular. Seu consultório não depende do SUS nem do Bolsa Família. Então essa eleição não mexe com o seu negócio, certo?

Errado. E a conta é mais simples do que parece.

Uma conta que não fecha

A campanha de Flávio Bolsonaro fala em um corte em torno de R$ 200 bilhões em gastos primários, com uma PEC a ser enviada ainda durante a transição, segundo o SBT News. Em entrevista à GloboNews, a coordenadora econômica da campanha, Daniella Marques, citou um corte equivalente a 1,5% do PIB, mas não detalhou quanto cada medida contribuiria para atingir a meta nem quais despesas permanentes seriam reduzidas.

Ao mesmo tempo, o candidato promete abrir mão de receita e assumir novos compromissos. A equipe defende reduzir o IOF aos níveis de 2022. E Flávio propôs congelar as dívidas de quem está devendo: seis meses de carência para pessoas e um ano para empresas, sem juros e sem parcelas nesse período. Depois disso, a Caixa compraria essas dívidas e refinanciaria com prazo mais longo e juro menor.

O tamanho da dívida que ele quer congelar

Para entender o peso dessa promessa, olhe os números. Segundo a Serasa, o Brasil chegou a 83,9 milhões de pessoas inadimplentes em agosto de 2026, um recorde. Só as dívidas em atraso dessas pessoas somavam R$ 586,4 bilhões em julho. Do lado das empresas, são 9,3 milhões de CNPJs inadimplentes, com R$ 244,4 bilhões em dívidas, de acordo com a Serasa Experian.

Coloque lado a lado:

Somadas, as dívidas de pessoas e empresas passam de R$ 830 bilhões, mais de quatro vezes o corte prometido. Numa conta ilustrativa, se a Caixa comprasse só 10% das dívidas das pessoas, seriam quase R$ 59 bilhões. Isso no mesmo governo que promete tirar R$ 200 bilhões do orçamento e cobrar menos imposto.

Cortar R$ 200 bilhões, reduzir impostos e ainda bancar o congelamento e o refinanciamento de dívidas de milhões de famílias e empresas. Quem vai pagar essa diferença?

Os economistas já responderam. Ouvido pela Agência Brasil, o economista Pedro Paulo Zahluth Bastos, da Unicamp, lembra que cerca de 90% das despesas primárias da União são obrigatórias e que as despesas livres somam pouco mais de R$ 200 bilhões. Ou seja: um corte desse tamanho que preserve programas sociais, salário mínimo e aposentadorias zera todo o resto. Até Marcelo Kayath, economista citado como possível nome para a área econômica de um eventual governo Flávio, considera inviável fazer esse ajuste em apenas um ano.

Se a conta não fecha cortando só "em Brasília", ela fecha cortando onde há dinheiro de verdade: nos programas que sustentam o consumo de milhões de famílias.

Já vimos esse filme

No governo Bolsonaro, o projeto de Orçamento de 2023 previa cortar 59% da verba da Farmácia Popular, de R$ 2,04 bilhões para R$ 842 milhões, segundo o Estadão. Hoje, o plano de Flávio não apresenta propostas específicas para ampliar o acesso a medicamentos. E o próprio candidato, no debate da Band, admitiu que a saúde não teve bons resultados no governo do pai e fez um mea culpa.

Como isso chega até você

Dinheiro público não fica parado. A família que recebe um benefício compra no mercado do bairro, paga o gás, compra roupa, faz a feira. Esse dinheiro vira o salário do caixa, o faturamento do lojista, o lucro do pequeno empresário. Por isso a economista Maria de Lourdes Mollo, da UnB, lembra que o gasto público tem um efeito multiplicador na renda e no emprego, que se perde quando há cortes grandes.

Agora pense em quem senta na sua cadeira. O dono da loja. A gerente do supermercado. O contador que atende comércio. O representante comercial. Muitos deles estão entre os milhões de inadimplentes. Quando o consumo da base cai, o faturamento deles cai junto. E a primeira coisa que a classe média corta quando o orçamento aperta é o que parece adiável: o retorno, o check-up, o procedimento eletivo, a consulta particular.

Tem também o paciente que perde o remédio gratuito, interrompe o tratamento e só volta quando o quadro piorou. Saúde mais cara para todo mundo, inclusive para quem paga.

O corte não começa no seu consultório. Mas termina nele.

"Mas meu paciente tem convênio"

Tem. E ele também é paciente do SUS, mesmo que nunca tenha pisado num posto de saúde.

Todo cliente de plano tem um número do Cartão SUS. Por norma da ANS, as operadoras são obrigadas a informar esse número para cada beneficiário, e desde 2016 o dado é obrigatório no cadastro de todos eles. Não é burocracia à toa: essa identificação existe para rastrear quando o cliente de convênio é atendido pela rede pública. Esses atendimentos geram uma cobrança da ANS às operadoras, que é repassada ao Fundo Nacional de Saúde.

E isso acontece mais do que se imagina. Pelo levantamento da própria ANS, só em 2018 foram mais de 178 mil internações e 351 mil procedimentos ambulatoriais de alta complexidade de clientes de planos na rede pública. Entre esses procedimentos, o mais frequente foi a hemodiálise, seguida do acompanhamento de pacientes transplantados.

Isso sem falar no que o seu paciente usa sem perceber. O SUS mantém o maior programa público de vacinação da América Latina e o maior sistema público de transplantes do mundo: mais de 90% dessas cirurgias no país são feitas pela rede pública, segundo a BBC News Brasil. O SAMU atende sem perguntar qual é o plano.

Ou seja: o SUS é a retaguarda do convênio. É ele que segura o paciente quando o tratamento é caro demais, quando o transplante é necessário, quando a emergência acontece na rua. Um SUS com menos recursos não afeta só quem depende dele. Afeta o seu paciente particular, que perde a rede de segurança, e afeta o seu consultório, que atende alguém mais desprotegido.

O outro lado

É justo dizer: Flávio nega que vá mexer nos programas sociais. Segundo ele, o corte está ligado a uma reforma administrativa, à redução da estrutura do governo e à diminuição de cargos comissionados. Na sabatina da TV Globo, disse que não vai mudar a Constituição para alterar os pisos de gastos com saúde e educação. A campanha também afirma que o fundo para comprar e refinanciar as dívidas seria abastecido com recursos de leilões de petróleo e venda de ativos, e não com dinheiro do orçamento. O plano ainda promete corrigir a tabela do SUS e pagar pelo uso da capacidade ociosa de clínicas e hospitais privados.

A pergunta que fica é a mesma que os economistas estão fazendo: se nada disso sai dos programas sociais, de onde saem os R$ 200 bilhões?

Antes de domingo

Você não precisa concordar comigo. Mas, como dono de clínica, você toma decisões olhando números todos os dias. Faça o mesmo com o seu voto. Leia os planos de governo, compare as propostas para a saúde e pergunte de onde vem o dinheiro. Porque, no fim, a conta sempre chega. A questão é em qual mesa.

Fontes

Quer uma marca que traduz a sua autoridade?

Vamos conversar sobre o seu posicionamento, site e presença digital.

Falar no WhatsApp →